A chegada da Rosa – Mariana e Rodolfo

A chegada da Rosa – Mariana e Rodolfo

Resolvi escrever esse relato porque precisava  encontrar alguma forma de organizar meus pensamentos sobre o meu parto, principalmente por ele ter saído completamente do programado, o que gerou também uma frustração que precisava ser vencida e compreendida. Uma das formas que eu uso para vencer e superar obstáculos é escrever sobre eles, o que me ajuda a entender o que eles representam para mim. E resolvi compartilhar esse relato porque, quem sabe, ele pode ser importante para alguma outra mulher que passou ou passará por tudo que eu passei, como foi importante para mim ter lido o relato da minha amiga, Karine Porpino Viana, dias antes do meu parto.

Rosa chegou no dia 04 de julho em um parto que fugiu totalmente do script. Eu poderia começar dizendo que do meu plano de parto só uma coisa saiu como eu queria (mas que bom que foi a coisa mais importante): a minha filha está nos meus braços e com saúde.

O meu desafio nesses últimos dias foi dar ao parto o real tamanho que ele tem no processo de trazer nossos bebês para o mundo. Eu acredito que o parto não é uma mera passagem, ele é uma das mais importantes fases de uma gestação. Eu acredito que um parto natural e humanizado é a melhor e forma de se trazer um bebê ao mundo. Eu acredito que se preparar para o parto que a gente deseja é importante mesmo quando ele não se realiza. Se eu não acreditasse nisso, a minha frustração não teria sido tão grande. Por outro lado, eu também sabia que “parir é perder o controle”, e perder o controle compreende a ideia de que o parto nem sempre é como a gente sonha, como a gente quer. A lição, contudo, é mesmo que a gente não desconsidere o parto como um importante momento da gestação, a gente não pode perder de vista que a missão maior dele é trazer nossos filhos ao mundo e não apenas realizar nossos desejos e vontades.

No meu caso, o mais importante para superar a dor do parto que não aconteceu da forma ideal, foi saber que Rodolfo Cabral e eu estivemos informados, conscientes e ativos com relação a todo o processo desde os primeiros pré-natais até as mais difíceis decisões sobre o parto. Fomos respeitados durante todo o processo e tivemos certeza de que tudo que foi feito foi necessário e importante.

Com 41 semanas e depois de uma sessão de acupuntura para indução, minha bolsa estourou. Era uma quinta-feira à noite. Aguardei ansiosa entrar em trabalho de parto durante toda a madrugada e dia da sexta-feira até a madrugada do sábado e nada. Cheguei a ter certeza que estava sentindo os sinais, mas, na verdade, não deixava de ser a expressão máxima do desejo de parir vaginal, naturalmente e em casa! No sábado pela manhã fiz uma nova sessão de acupuntura, agora até com outro médico, conhecido por colocar mulheres em trabalho de parto, e nada. Fui para casa com agulhas no corpo e meu marido ficou esquentando-as com uma moxa várias vezes ao dia. Fizemos caminhadas e nada das contrações pegarem ritmo. Tomei o tal chá (imbatível) da parteira mexicana e nada. No domingo pela manhã, já estávamos exaustos das tentativas e de três noites de frustração, senti que meu líquido diminuía e chamamos as nossas parteiras para que elas pudessem ouvir o neném e ver como tudo estava para seguirmos aguardando o trabalho de parto. Iara veio a nossa casa, realmente não tinham mais tanto líquido (o que não é nada extremamente grave nessa fase da gestação), mas os batimentos estavam normais e meu estado clínico era bom. Já o meu estado psicológico – e o do meu marido – já estava por sucumbir de cansaço e frustração. A nossa parteira nos acolheu com muito carinho e foi nos atualizando que, na literatura médica, só há relatos de segurança na espera do TP depois da bolsa rota por 72 horas, e nos aproximávamos disso. Precisávamos pensar sobre o parto hospitalar induzido e sobre a cesárea. Depois de uma longa e dolorosa conversa decidimos ir para o hospital tentar a indução para o parto normal.

Na nossa casa ficava montada a piscina e o sonho do parto natural e domiciliar.  Já que havíamos decidido ir para a indução, resolvemos fazer o toque, que não é recomendado para quem está com a bolsa rota, mas como nossa espera não poderia mais ser estender, fizemos. Eu tinha entre 3 e 4 centímetros de dilatação, mas o bebê não estava encaixado. Chegamos ao hospital por volta das 16h30 do domingo, iniciamos as tentativas de indução às 18h e tentamos indução por quase 10h. Eu não respondia à medicação.

Minha doula Carmen Palet estava comigo, fizemos vários exercícios com bola, caminhadas e sessões de Jin Shin Jyutsu. Eu seguia sem ter contrações fortes e sem que, mesmo as leves, pegassem ritmo. Meu colo não favorecia o uso de oxitocina.

Às 2h30 da manhã eu seguia com 3 cm de dilatação e praticamente nenhuma contração.

Com 74 horas de bolsa rota, 41semanas + 4 dias de gestação, várias formas naturais e medicamentosas para tentar, sem sucesso, entrar em trabalho de parto, nos restou a cirurgia.

Não me resignei facilmente. Foi uma decisão difícil. Lembrei da conversa com Iara pela manhã, que me contou que na cesárea a mulher ficava na posição de cruz, que a gente ficava assim como Cristo, crucificado, e que aquilo poderia ser entendido como uma condição de resiliência e resignação. Para nós que, ao ir para a cesárea, deixamos de lado a vontade de parir ativamente, é uma condição de máxima entrega. Assim como Cristo, a gente se deixa “crucificar” por algo maior, por algo mais importante do que nós mesmos, por algo que muda e marca as nossas vidas para sempre. Sendo assim e lembrando das palavras de Iara, eu fui, encarei a luz branca da sala de cirurgia, mas com meu marido ao lado e com as músicas que a gente escolheu para a chegada do nosso bebê tocando.

Nossa Rosa nasceu às 3h24 da manhã ao som de “A casa é sua”. A partir daqui poderia ter sido tranquilo e a cesárea humanizada, que sim é possível, e que é uma caracterítica do meu ginecologista Bruno Ramalho  poderia ter acontecido, mas não foi tranquilo… Rosa chegou desacordada. Foram os piores minutos da minha vida. Mais uma vez, nem mesmo uma cesárea tranquila e humanizada que nós e a equipe tínhamos planejado, tivemos direito. Rosa não pode vir direto para o meu braço, não pudemos esperar o cordão parar de pulsar para ser cortado e foram feitas todas as intervenções possíveis para reanimá-la. Mais uma vez, aconteceu tudo que a gente não queria, mas que foi necessário (que é diferente de ser feito por padrão), para trazer a nossa filha para nós.

Meu marido e eu agradecemos todos os dias pela equipe que tivemos e que nos permitiu chegar até as últimas tentativas e ter certeza de que, no nosso caso, a cesárea era necessária para a nossa segurança e a segurança do nosso bebê, bem como todas, ou a maior parte, das intervenções que foram feitas nela. A presença da Carminha como minha doula durante todo o processo foi mais que importante – foi essencial para me dar tranquilidade, inclusive no doloroso encaminhamento para a cirurgia. A paciência do meu obstetra Bruno, que nos acompanhou durante as 10h de indução foi incrível, bem como a sua sensibilidade a cada visita ao quarto de hora em hora para acompanhar o bebê. Nossas parteiras/terapeus, Iara e Ana Cyntia Paulin Baraldi (Luz de Candeeiro), apesar de não estarem conosco no parto, continuam sendo parte essencial dessa história e desse processo. Aprendemos tanto com elas que palavras não seriam capazes de traduzir.

Eu não tenho como descrever a dor de não ter sentido a tão esperada dor do parto. A dor de não sentir dor. Parece que foi uma das maiores dores da minha vida. Contudo, a nossa experiência nos mostrou o quão pequeno nos tornamos e tornam-se as nossas dores e desejos diante da grandeza de uma nova vida, da vida que geramos e que passa a depender completamente de nós, independente do parto que tivemos. Quando ela chega e passa, literalmente, a nos sugar, nós encontramos o lugar certo para depositarmos as nossas dores. Passamos a dar às nossas frustrações o tamanho que elas realmente têm. No meu caso foi frustrante, foi difícil e foi dolorosa a “opção” pelo parto cirúrgico, mas eu precisava entender que foi ele que nos trouxe a nossa filha e ser grata por isso.

Precisei entender, e isso me ajudou muito, que respeitar a natureza é muito mais que querer que ela atenda as nossas expectativas. Respeitar a natureza é apurar os nossos sentidos para que a gente consiga ouvi-la quando ela nos diz, inclusive, o que não queremos ouvir. A natureza continua sendo sabia e ela te dará sinais. Ela me deu sinais. O meu corpo dizia que não faria esse trabalho sozinho e que precisava de assistência e de auxílio. Ao final, era real, nessa gestação, o meu corpo e a minha natureza me protegeu e protegeu Rosa, a minha placenta já apresentava sinais de infarto e Rosa precisou ser reanimada ao chegar. Eu precisava parir em outro lugar e assim foi.

No caso, Rosa precisou ser reanimada muito provavelmente por um erro da própria cesárea, pois o mais provável é que o anestesista tenha errado a mão na minha peridural, pois no parto seguinte, cujo anestesista era o mesmo, o bebê também nasceu desacordado. Eu fiz parte, nesta gestação, dos 15% das mulheres que, segundo a OMS, realmente precisam de algum tipo de intervenção para parir.

Nenhuma intervenção foi feita desnecessariamente, e ter essa certeza é o que também me fortalece e me faz superar.

Assim como eu li no relato de parto de Karine, o parto que a gente tem é o caminho necessário para o reencontro entre aquele bebê que nasce e a mãe que o aguarda. O meu parto me ensinou muito. Me ensinou a perder o controle, a sentir a maior frustração da vida e ao mesmo tempo ser recompensada com o melhor presente que ela poderia me dar. Me ensinou que faça o que eu fizer, eu não estou no controle e no comando do que eu não posso controlar e comandar, no que não me cabe, e que os filhos escolhem como vir ao mundo e essa passagem é parte das nossas histórias, é necessária. Nossa história é o que Rodolfo, Rosa e Eu precisávamos para nos tornarmos o que somos hoje, uma família feliz e completa.

 

P.S.: Obrigada a minha amiga Mari Mariana Leal por ter me trazido aos olhos o dia mais importante da minha vida…Amiga, vc é responsável por me devolver imagens que eu não vi por estar na maca. A chegada de Rosa, os primeiros cuidados, o contato dela com Dolfo, comigo.. Cenas eu que construía inclusive de forma diferente nas minhas lembranças. Obrigada por não ter desistido quando eu erroneamente achei que por estar indo para cesárea não fazia mais sentido fotos… Sim, faz todo sentido.