fbpx

Modelo de Atenção ao Parto e Nascimento

Muito se fala no Brasil sobre uma necessária mudança de modelo de atenção ao parto e nascimento. Embora frequentemente associada a uma negação da cesariana, ou a um “forçar o parto normal”, a questão passa longe dessa famosa dicotomia.

Sim, é imprescindível o questionamento sobre o motivo que justifica a taxa de cesariana de 55%, chegando a assustadores 86% na rede de saúde suplementar. A Pesquisa Nascer no Brasil – um inquérito nacional realizado com mais de 24 mil mulheres nos sistemas público e privado, revela que a maioria das mulheres, ao iniciar o acompanhamento pré-natal, desejava o parto normal, mas, ao final da gestação, boa parte delas havia mudado de ideia. O que aconteceu nesse caminho?

Não há uma resposta simples ou única, mas gostaríamos de destacar aqui alguns ponto.

Construiu-se em nosso país uma cultura que se baseia em medos, mitos e conveniências e que sustenta essas taxas de cesariana. Vendida como uma via de nascimento prática, indolor, previsível, mais segura que o parto normal, única forma de garantir ausência de dor e a presença exclusiva daquele ou daquela profissional cuidadosamente escolhido/a para “fazer” esse “parto”, as mulheres acreditam estar fazendo a melhor escolha, mas podem estar levando “gato por lebre”.

Além disso, profissionais de saúde (da medicina, da enfermagem e de outras categorias), muitas vezes reproduzem certas crenças e aprendizados recebidos em sua formação – convencional, tradicional, não fundamentada no que se considera ideal: as evidências científicas – e também acreditam estar oferecendo o melhor cuidado às mulheres e seus bebês, o mesmo que ofereceriam, por exemplo, a uma filha ou irmã. 

Muitas vezes, quando se questiona o quão (in)adequado é esse modelo – que ignora a fisiologia potente do corpo feminino que gera e dá à luz e seus benefícios para a saúde e a vida de mulheres e crianças, a reação imediata é a defesa de si, dessas escolhas e desses fazeres repetidos e consolidados por décadas.

Entretanto, uma vez que uma pessoa – profissional de saúde ou não – se permite a dúvida, a oportunidade da reflexão, detém-se por um tempo a acessar boas e atuais informações, recomendações e protocolos nacionais e internacionais, ou, ainda melhor, permite-se a escuta atenta às vozes das mulheres que experimentaram esse convencional, buscaram caminhos alternativos e, quem sabe, pariram sentindo prazer e satisfação, mesmo que tenham atravessado as intensas ondas, muitas vezes dolorosas, das contrações uterinas, sente brotar em seu coração um desejo, uma luz, uma disponibilidade de mudança e de fazer diferente.

Como profissionais, ao percebermos que tudo isso que se resume na expressão “parto humanizado” é a união de um tripé indissociável composto pelos pilares da autonomia e do protagonismo das mulheres, do cuidado prestado por equipe multiprofissional e interdisciplinar e, principalmente, das sólidas e mais recentes evidências científicas, não há volta, o único caminho é o da mudança do paradigma de cuidar.

Quando isso ocorre, percebemos, sentimos no coração e nas carnes, quão satisfatório e prazeroso é para nós também cuidar assim dessas mulheres porque esse tripé da humanização nos inebria também de ocitocina, nos permite viver, vibrar, sair do automático; nos permite amar e honrar a profissão, as mulheres, suas crias, a vida.  

Quando isso ocorre, é como se tivéssemos tomado aquela pílula da Matrix: passamos a enxergar uma realidade na qual estávamos submersas/os, mas não percebíamos. Isso é duro, dolorido: reconhecer que nossas atuações e nossos aprendizados não eram exatamente os melhores e que precisam com urgência ser mudados e atualizados.

“Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer
(…)
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

(Velha roupa colorida, Belchior)

Aquelas frases ditas para as mulheres, a solidão em que são deixadas, o jejum que lhes é imposto, as intervenções não consentidas sobre seus corpos; aqueles bebês bruscamente separados do colo e do calor mais íntimos e familiares de sua existência, manipulados e tocados automaticamente e não suavemente – tudo isso passa a ter nome claro: violências. E a doer em nossas carnes. E a produzir energia, movimentos, transformações, frutos.

Assim como muitas equipes que cuidam de mulheres e bebês recém-nascidos pelo Brasil, a Luz de Candeeiro nasceu da necessidade premente e do desejo potente de existir para estar ao lado das mulheres, de ser uma mão segura em suas travessias e proporcionar recepções calorosas para serezinhos que estão estreando no lado de cá da vida.

Embrenhar-se em caminhos inéditos, abri-los, é um tanto desafiador, exige resiliência, capacidade de regeneração. A beleza do caminhar e da paisagem, as companhias que vamos ganhando na medida em que damos mais passos fazem tudo valer a pena.    

Post anterior
Relato de parto da Camila
Próximo post
Parto Normal Após Cesariana na Luz de Candeeiro
Menu