Nascimento da Catarina – Ana Carolina e Tágori

Nascimento da Catarina – Ana Carolina e Tágori

Demorei muito para escrever meu relato de parto, porque não conseguia decidir qual abordagem usar: focar a experiência da mulher que virou mãe ou fornecer os argumentos científicos que me levaram a fazer as escolhas que fiz. Depois de muito pensar, percebi que não sou só uma parte ou só outra e este relato de parto também não o pode ser. Se eu fosse arquiteta, ou música, ou historiadora, provavelmente, ninguém se importaria com o que penso da parte científica; mas sou médica e, bem ou mal, as pessoas tendem a levar a sério o que eu falo nesse sentido.

 

Acordei, dia 26 de fevereiro, às 3h53. Contrações. Outra vez. Há 3 semanas apresentava já períodos prolongados delas, eventualmente com dor, na maioria das vezes sem. Com 40 semanas e três dias, já havia descoberto que uma gravidez a termo dura nove meses e uma eternidade. Eu quase nem acreditava mais que iria parir. Fui, mais uma vez, para debaixo do chuveiro. As águas sempre tinham lavado embora as contrações. Dessa vez, não. Às 6 horas da manhã, acordei meu marido: “acho que você vai ser papai hoje.” Ele fez contato com as enfermeiras, que ficaram de passar logo mais. Às nove da manhã, desapontada, tinha somente 1 centímetro de dilatação.

 

“Nessa fase da vida em que eu estou, eu me dou ao luxo de não fazer mais parto normal, somente cesárea.” Era um médico extremamente bem recomendado. Professor universitário. Mestre. Eu iria entender, é claro. E entendi. Na verdade, o único motivo pelo qual deixei de fazer o acompanhamento com ele era a dificuldade de marcar consulta. Mudamos para outro médico. Igualmente bem recomendado.

 

Ana Cyntia, a enfermeira obstetriz, voltaria quando a contração piorasse. Coloquei em prática o que havia aprendido da aula de auto hipnose e entrei em transe. As contrações vinham, dolorosas, mas a sensação era como um sonho, entremeado de pesadelos. Conseguimos segurar a ansiedade até que, por volta de 13h00, a hipnose não funcionava mais. Procurei o meu amigo chuveiro, mas ele já não era mais tão amigo assim. Ligamos novamente para a Ana.

 

O novo médico era muito atencioso. Claro que poderíamos tentar parto normal. “Tentar, deixemos claro. Sem muito radicalismo, porque, você sabe, a cesárea é tão segura quanto o parto normal, então não vamos arriscar.” Eu sabia. Eu tinha aprendido na faculdade. Tinha aprendido também que parto normal doía, sem entender que a ocitocina, administrada de rotina, era justamente o potencializador da dor. Tinha aprendido vendo episiotomias que não tem e nunca tiveram base científica. Tinha aprendido vendo, inclusive, a manobra de Kristeller – quando empurram a barriga da mulher para “ajudar” o nascimento do bebê. Nesse ambiente de dor e de desespero, a cesárea até me parecia um ato de benevolência com a paciente.

 

Ana e Iara chegaram lá em casa e meu coração ficou aliviado. Se elas já vieram de mala e cuia, pensava meu coração, o parto está próximo. Como o coração ilude a gente! A dor tinha aumentado muito e nenhuma posição era agradável. Consegui algum alívio com uma bolsa térmica, entre as contrações, e com a massagem que meu marido fazia, durante. Quando eu falo massagem, na verdade quero dizer que ele apertava minhas costas com tanta força que o pobre chegou a ter cãibra na barriga. Comecei a me deseperar em alguns momentos, mas meu marido sempre chamava-me de volta à realidade para que meu sonho não me escapulisse. O desepero piora a dor e eu sabia disso. Apesar de ter somente de 3 a 4 centímetros de dilatação, eu já sentia os puxos e tinha vontade de empurrar. Era a bolsa das águas que ainda não tinha-se rompido e passava pela pequena dilatação do colo. A dor foi-se tornando insuportável e eu fiz o que sabia que faria: pedi arrego. Na verdade, um dos motivos pelo qual escolhemos o parto domiciliar foi exatamente o fato de não haver anestesista perto. Eu sou fraca para a dor, sempre fui. Um anestesista a poucas salas de distância seria uma tentação muito grande para mim.

 

O Facebook mudou minha vida. OK, também não é para tanto. É que foi no face que eu vi um dado importante: 80% dos partos particulares no Brasil são cesáreos. A OMS recomenda não mais que 15%. Espera aí! Tem algo errado nessa estatística. Por que tantas cesáreas assim? E dá-lhe Pubmed (um site que incorpora pesquisas de alta qualidade do mundo inteiro, amigo íntimo dos médicos), e dá-lhe Cochrane (um site de metaanálises, provavelmente o mais respeitado do mundo). Não, a cesárea não é segura. Ela aumenta a mortalidade da mãe e do bebê em, pelo menos, 4 vezes. A episiotomia é prejudicial e não tem base científica. A anestesia, muitas vezes, é prejudicial. O colírio que é pingado de rotina no bebê só deveria ser usado em mães que tem gonorreia e, mesmo assim, somente em parto normal. Em outras situações, ele causa uma conjuntivite química no bebê absolutamente desnecessária. O trabalho de parto realizado em uma maca, com a mulher deitada, foi fruto de um decreto de um rei pervertido.  Vi a quantidade de indicações mentirosas de cesárea, a questão polêmica da diferença de remuneração do médico nos partos normais e cesáreos e, o pior de tudo: a separação da mãe do seu bebê. O relato de uma mãe que pegou sua filha somente duas horas depois de ter feito uma cesárea. O momento mais importante da vida das duas, roubado por teorias pseudocientíficas, ultrapassadas. Não era isso que eu queria para nós.

 

A essa altura, as enfermeiras optaram por fazer microfuros na bolsa. Meu marido disse que se impressionou com a rapidez da decisão e com a técnica do procedimento Para mim, o importante foi o alívio da dor: instantâneo. Ainda doía, mas agora a dor era tolerável. Um susto: líquido tinto de mecônio. Elas disseram-me que poderia ser sinal de sofrimento fetal ou simplesmente maturidade fetal. Disseram que o estágio da gestação indicava a segunda opção. Continuariam acompanhando os batimentos cardíacos da minha filha. Agiram com tanta segurança, demonstrando tanta autoridade técnica, que eu consegui novamente “desligar o botão de médica” e me entregar ao meu lado mamífera. Sim, nesse ponto, era isso o que eu era: uma mamífera, um animal parindo. Eu estava em outro mundo que esse povo que trabalha com parto humanizado chama de partolândia. Nem carinho em mim eu deixava meu marido fazer, porque me tirava desse outro universo e me trazia de volta à terra. Não era isso o que eu queria. Eu queria parir. Eu fui feita para parir. A cada contração, minha filha estava mais perto de mim.

 

Já era o terceiro trimestre da gravidez e fomos visitar a casa de parto de São Sebastião. Conhecemos gente que se importava com as pessoas, para além dos procedimentos.  Não estou dizendo que eles não sabiam seguir os procedimentos. Sabiam e sabiam muito bem. Só que eram pessoas que se preocupavam com pessoas. Era o ambiente que eu queria para minha filha, para meu marido e para mim, no nosso grande dia.

 

Com 7 centímetros de dilatação, fomos para a banheira. A dor melhorou  muito. Os batimentos da bebê mantinham-se bem. A essa altura, minha mãe, que mora em Belo Horizonte, chegou a Brasília. Detalhe simples: ela não sabia que seria um parto domiciliar. Tivemos medo de contar com antecedência porque isso não foi bem recebido por outros parentes nossos. Só que os outros parentes não vieram participar, ela viria. Meu marido recebeu-a no andar de baixo de casa e disse a ela, no tom mais reconfortante que pode usar: “então… não quero assustar a senhora, mas sua netinha vai nascer aqui em casa.” Para nossa extrema surpresa, ela vibrou! “Que legal! Toda a nossa família nasceu em casa!” Deus é tão maravilhoso que permitiu que ela tivesse viajado, poucos dias antes, à casa dos meus avôs, no interior de Minas, e eles tinham dito a ela quão boa fora a época quando as mulheres pariam em casa. Sempre sorrindo, como é o costume dela, ela subiu as escadas e para encontrar-me na banheira. Como foi bom receber o seu olhar de aprovação! Fez muita diferença.

 

Saindo de São Sebastião, já tínhamos certeza de que queríamos um parto natural. Só faltava decidir onde. Meu marido insistiu no parto domiciliar. Como louvo a Deus pela insistência dele. Quando chegou a hora do parto, eu não conseguia imaginar-me sendo transportada para um lugar desconhecido,  tendo que fazer o trajeto de casa até o hospital com contrações. Não, eu estava no meu ninho. Nós éramos os protagonistas do parto. Nós, eu e meu marido, uma pequena família recebendo nosso bebê.

 

Coloquei a mão para sentir a cabeça da bebê e percebemos que o colo estava grosso, fora do normal. As obstetrizes, rapidamente, diagnosticaram um edema no colo do útero, possivelmente decorrente dos puxos que, por tanto tempo, a bolsa, antes de ter sido estourada, havia-me levado a fazer. Revendo os fatos, acho que esse seria o momento em que teriam me encaminhado para uma cesárea, se estivéssemos no hospital. Isso, claro, se eu estivesse com uma equipe bacana, pois, se fosse uma equipe impaciente, teríamos sido encaminhados muito antes: um trabalho de parto que progredia lentamente, um mecônio no líquido amniótico; entretanto, a competência técnica das enfermeiras foi extraordinariamente impressionante: iniciaram um procedimento consistente em colocar uma pedrinha de gelo no colo do meu útero até o edema regredir e, com a mão, administraram uma manobra para ajudar a cabeça da bebê a passar pelo colo. Tudo isso foi feito na banqueta de parto e, depois disso, voltei para a banheira.

 

A escolha da equipe foi, inicialmente, uma decisão baseada na capacidade técnica. Meu marido, que é acadêmico, autorizou-me a confessar, em seu nome, que ele checou os currículos Lattes de ambas. Eu mesma havia relacionado todas as equipes de enfermagem que fazem parto domiciliar no Distrito Federal. Havia procurado saber as qualificações de cada uma delas. Gostei muito da equipe Luz de Candeeiro. O fato de terem mestrado passou uma segurança adicional. Quando fomos à consulta, elas, sem saber, já tinham sido submetidas a um extenso check list e tinham sido aprovadas. Até no PROCON eu fui procurar informação. Bobagem minha, não tinha ideia do profissionalismo e do carinho com que iria ser tratada, desde o começo. Fomos ao consultório – mais parecido com uma casa que com um consultório – e a empatia foi imediata. Não precisávamos de mais tempo para pensar se era isso mesmo que queríamos. Já estávamos decididos. Elas tiveram que insistir para levarmos o contrato para casa antes de assinar.

 

Na banheira, o parto não progredia. Empurrrava, empurrava e nada. Meu marido se contorcia todo para massagear-me e para apertar-me até não poder mais. Foi o melhor parceiro de parto que eu poderia imaginar. Ele foi realmente sensacional, como tem sido em tudo desde que o conheci. Eu empurrava, mas a bebê não queria sair ainda. Pedi a Deus. Estava exausta, há 18 horas com contrações.

 

Quando conto a nossa história, as perguntas, em geral, são as mesmas. “Mas você é médica, por que optou por um parto em casa?” Porque é mais seguro. Porque é mais humano. Porque é mais respeitoso. Tem gente que acha que parto em casa é só coisa de índia silvícola, sem acesso a hospital, ou de gente maluca, esses doidos de Woodstock. Eu acho que coisa de maluco é não se atualizar, não estudar, não estar disposto a rever seus conceitos se confrontado com coisa de gente séria. A segunda pergunta é pior: “Dói?” Dói. Muito. Vou repetir: dói. No dia seguinte ao parto, vi, no Facebook, que a dor de um parto normal era equivalente ao quebrar de vinte ossos, ao mesmo tempo. Isso resume bem o que senti. Quem já é mãe vai entender-me. Ainda que me quebrassem todos os ossos ao mesmo tempo, e não só vinte deles, eu preferiria mil vezes isso a saber que aumentei a chance de mortalidade da minha bebê em uma vez só que fosse, imagina quatro.

 

Fomos novamente para a banqueta. Creio que foram três contrações e ela chegou. Nossa bebê, a benção que o Senhor nos deu. Recebida, pelos braços dos pais, com uma oração inspirada pelo Espírito de Deus. Deitamos na cama em família e nos vimos, e nos cheiramos, e fomos felizes para sempre. Para mim, minha filha eram olhos, e boca, e língua, e bracinhos, e perninhas, fomos nos descobrindo aos poucos. Aqueles olhos enormes quiseram mamar e encontraram meu peito. A placenta saiu, acho que senti cólica. Não tenho certeza, viver consumia-me. Alguém falou algo sobre o tamanho da placenta, todo mundo concordou, o mundo lá fora continuava girando, mas a gente, não. Minha filha estava no meu peito, estava comigo. O pai cortou o cordão umbilical, nem sei se isso foi antes ou depois de ela mamar, era alegria demais.

 

Carol Schwab – mãe da Catarina