Nascimento do Bernardo – Marília e Mykaell

Nascimento do Bernardo – Marília e Mykaell

Beirando as 41 semanas a ansiedade se tornou a minha principal companheira, nem era tanto a pressa de ter o neném em si, ou o cansaço que aquele barrigão me deixava. Era mesmo o medo do tempo acabar eu ficar sem o parto. Lembrava das varias mulheres que via em trabalho de parto no hospital e pensava “meu Deus, será que eu não vou nem saber o que é uma contração?”

Uma mistura de medo e querer. Mas disso eu já falei no outro relato. Agora é a vez do parto.

 

Foi na madrugada de 24 de agosto, estava acordando mais ou menos de 2 em 2 horas com um desconforto, parecia vontade de fazer xixi, um pouco de dor de barriga. Às 5 horas da manhã comecei a sentir as primeiras contrações, intervalos variando em mais ou menos de 15min.

Para aquela manhã eu tinha agendado uma consulta com o acupunturista às 10:30 para indução do parto, estava com 41 semanas + 2 dias.

Às 06:30 acordei meu esposo e contei que estava sentindo as contrações. Aquele arrepio no coração “então será hoje?”. Mandei mensagem pra enfermeiras às 06:56 perguntando se deveria ir mesmo assim pra acupuntura.

“Acho que podemos manter a acupuntura e a consulta à tarde. A não ser que o trabalho de parto chegue mesmo antes disso. Tome um banho morno e tente dormir um pouco. Tente fingir que não é com você por enquanto.”

Ok, mas era comigo sim, mesmo eu dizendo pro meu marido que tranquilo, que ele podia ir trabalhar, que tinha que esperar pra saber se era o trabalho de parto mesmo, eu sabia que era comigo.

Levantamos e fomos colar folhas A4 na janela da sala (meu apartamento é de frente à outro prédio, e na janela da sala ainda não temos cortina). Entre uma contração e outra combinamos mais ou menos como seria nosso dia: Mykaell iria trabalhar, eu deixaria a Maria Clara na casa da avó e iria para a consulta com o acupunturista. Caso o trabalho de parto engatasse mesmo eu ligaria.

E assim foi.

Minha mãe chegou pra me levar pra acupuntura. Descendo o elevador com alguns vizinhos e uma contração reprimida na cara de Monalisa pra não chamar a atenção.

Deixamos a Maria Clara na casa da avó. Expliquei para ela que se o Bernardo fosse mesmo nascer naquele dia o papai iria busca-la no colégio.

Ja eram 10 horas, estava com contrações de 5 em 5 minutos com duração de 30 segundos, bem mais fortes agora.

Na acupuntura recebi agulhas nos pontos para equilibrar a energia, permitir a abertura. Me senti bem melhor, não sei exatamente dizer o que mudou, mas algo estava realmente mais em harmonia. A contração agora era uma força que pegava o corpo inteiro.

Ja era horário de almoço quando saímos do consultório então decidimos comer no restaurante ali perto. Foi realmente uma coisa pra me servir e comer! Sentava pra comer nos intervalos e me levantava pra caminhar nas contrações, mesmo em silêncio e me esforçando pra não fazer caretas, nem preciso dizer que todos no restaurante perceberam, né?

Às 12:54 mandei mensagem pras enfermeiras dizendo que preferia voltar pra casa e não ir pra nossa consulta que estava marcada pras 15h. Ja estava mesmo muito desconfortável ficar na rua.

“Isso. Vai pra casa, tome um banho, tente ver se consegue dar uma descansada. Se conseguir cochilar vai ser ótimo, deve ser um parto pra madrugada. Se o trabalho de parto chegar chegando, liga.”

Cheguei em casa, peguei o sonar e fiz uma ausculta longa, seria somente essa vez que iria auscultar, no meu parto não queria ser enfermeira, seria apenas mulher. BCF ok, bebê mexendo após cada contração, tudo lindo como manda o figurino.

Consegui deitar e cochilar um pouco entre as contrações. A intensidade foi aumentando. Às 15:10 mandei mensagem de novo:

“2 contrações em 10 minutos durando 40 segundos. Agora que saiu o tampão com uns rajadinhos de sangue. Treme o corpo todo, né? É realmente a coisa mais diferente do mundo. Nem da pra comparar”

“É diferente. Há quanto tempo está 2 em 10 min?”

“Po… acho que ja tem 1 hora. Vou ficando sem posição…”

Decidi fazer eu mesma um toque, ja que o eu-enfermeira não quis sair 100% de mim, hahah

“Não me parece ainda fase ativa, até porque você esta digitando!”

“Consegui tocar. Mas esta alto, posterior, 3 cm e só uns 30% apagado.”

Falei que elas poderiam vim as 20h depois do trânsito. Preferia que viessem mais tarde, estava bom assim, em casa, quietinha.

Foi emocionante fazer o toque em mim mesma, sentir o colo e a bolsa integra sem estar de luva. Mas ali eu soube que ainda teria uma boa estrada pela frente. Pensei: “respira fundo Marília e vambora!” Me entreguei.

Fui procurar uma posição confortável. Experimentei uma a uma daquelas posições sugeridas nos folders do ministério da saúde, hahahah. Até que encontrei a melhor pra mim: com os joelhos apoiados na estrutura fixa da cama e o tronco debruçado sobre uma pilha de travesseiros. O dia estava agradável, mas eu queria calor, muito calor. Pedi que minha mãe trouxesse a bolsa de água quente e que fosse colocada sobre a minha lombar e ainda me cobri com uma manta bem quentinha. Fiquei suando, uma delícia!

Minha mãe queria começar a arrumar as coisas, colocar o plástico na cama, insuflar a banheira, mas eu disse que poderia deixar que o Mykaell fizesse isso quando ele chegasse. Afinal, era um parto pra madrugada, como bem disse a enfermeira e eu preferi acreditar (vamos evitar a ansiedade)

Cada contração que vinha era uma onda, um mergulho mais fundo. Era uma alegria, um prazer em estar sentindo aquilo. Doía? Claro que doía. Eu começava oralizando um AAAAHHHH com a boca bem aberta, garganta solta, quadril relaxado, e quando a contração ia chegando no ápice o AAAAHHHH se transformava em um AAAAAIIIIIIIIIIII, até que ela ia aos pouquinhos sumindo, dando espaço pra uma sensação de relaxamento profundo, muito mais gostoso que uma banheira de água quentinha. E então eu entendia: eu posso fazer isso! Eu realmente posso fazer isso! O meu corpo sabe parir! Não eram os livros ou artigos falando, nem o meu intelecto militante. Era o meu coração, a emoção. Tudo agora fazia sentido.

Não vi as horas passando, não senti pressa. Eu queria mesmo era ficar ali, curtindo aquela experiência. Eu já estava na partolândia, e que lugar maravilhoso!!

O Mykaell e a Maria Clara chegaram, vieram no quarto me cumprimentar carinhosamente em silêncio. Minha mãe saiu com a Maria Clara e eu e o Mykaell ficamos um pouquinho a sós. Nem lembro o que conversamos, só sei que olhei pra ele e pensei: é, o dia chegou!

Pedi que ele tirasse uma foto minha dando joinha e um self nosso, isso era 18:04.

Logo depois eu disse

“Amor, diz pras meninas que eu já não estou mais conseguindo conversar”

Eu realmente já estava nas profundezas da partolândia, queria que ele dissesse isso a elas, que a fase ativa já tinha começado. Mas uma força hipnotizadora me segurava, eu não podia mais explicar o que estava sentindo, mal estava abrindo os olhos.

E enquanto ele às avisava eu fui para mais um banho, deixar a água morna cair no corpo, revigorar as energias.

“Oba! Se ela achar que o bicho ta pegando antes de umas 20h, liguem, ta? Ela vai ficar sem querer conversar mesmo. Esta saindo mais sanguinho?”

Eu não estava perdendo aquele sanguinho característico de colo que esta dilatando. Então mais uma vez eu pensei: “respira fundo Marília e vambora”. Não quis fazer outro toque. Não, não. Desliga a enfermeira e liga a mulher. Se eu fizesse outro toque e visse que continuava com os mesmos 3 cm, colo alto, grosso e posterior, talvez eu pudesse me desanimar, e eu não queria cobrança. Pra que pressa? Está tudo bem! Estamos bem! Sinto o Bernardo mexendo harmonicamente após cada contração, então é isso ai, vamos curtir, vamos aproveitar.

Voltei para a minha posição amiga.

Então comecei a sentir a clássica vontade de fazer cocô. Olhei no relógio, era 19:10. Fiz as contas das horas, mais ou menos 4h após aquele toque de 3cm, então pensei “não, não deve ser o neném ainda. Em 4h eu não evoluiria tanto assim”. Ignorei.

Poucas contrações depois senti um estalo em todos os ossos do quadril, e um fluxo descendo pela vagina. Levei um susto. “Meu Deus do céu, alguma coisa desceu aqui”. Decidi fazer um toque, so pra ver de qual é. Mal coloquei uma polpa digital e já senti a bolsa quase coroando! Fiz um toque mais fundo e senti a cabeça inteira do neném. “Ele ta aqui!”

Caramba, um misto de alegria e surpresa! Uma adrenalina imensa! Coração acelerou. Fui para o chuveiro novamente, agora com bastante sangue escorrendo pelas pernas. Chamei o Mykaell e pedi que ele ligasse pra enfermeira avisando que a bolsa estava quase coroando. Isso tudo em menos de 1 hora da ultima vez que ele tinha mandando mensagem pra elas.

As contrações agora eram um puxo, uma vontade incontrolável de empurrar. A água caindo nas minhas costas, uma mão apoiada na parede na minha frende e a outra segurando a mão do Mykaell que estava do lado de fora do box, e eu pensando no intervalo de uma contração:

“Ele vai nascer antes da enfermeira chegar… não vai dar tempo. Vou ter que sair daqui. Aqui dentro do box não da pro Mykaell e minha mãe me ajudarem. Vou pra cama. Não. A cama não. Ta sem o plástico, vai sujar tudo. Vou pra piscina então. Não. A piscina ta sem água ainda… É, mas vai ter que ser, pelo menos eu la dentro não vai sujar a casa e da pra minha mãe e o Mykaell me ajudarem. Vou pra piscina.”

Veio mais uma puxo, assim que ele passou, desliguei o chuveiro e sai quase que correndo do box dizendo:

 

“vou pra piscina”

 

Minha mãe no meio do caminho:

 

“mas a piscina ainda não encheu…”

 

“tem nada não mãe, a bolsa já ta coroando”

 

“Filha, quando a bolsa ta coroando quer dizer que já vai nascer?”

 

“Aham”

 

Depois minha mãe me contou que foi nessa hora que ela sentiu o frio na barriga. Hahhaha.

Minha mãe e a Maria Clara começaram uma força tarefa pra encher a piscina, buscando baldes e baldes de água do chuveiro. No final até que ela estava quase pela metade.

Mykaell ficou do lado de fora da piscina me dando apoio, segurando minha mão. Acho que foi o melhor momento. Eu estava em outra dimensão. Sentindo entre nós a mais profunda união.

A bolsa começou a fazer pressão no períneo e eu comecei a sentir o tão famoso circulo de fogo. A contração emburrava, o períneo esticava centímetro por centímetro, queimava. A contração passava, a pele se acomodava, e então tudo mais uma vez. Uma palavra pra definir o expulsivo: INCRIVEL. Não, duas palavras pra definir: INCRIVELMENTE MARAVILHOSO!! Ou na verdade, nenhuma palavra poderá definir o que é esse momento.

Vivi a mais profunda entrega, não queria perder um centímetro que fosse.

A enfermeira chegou acho que uns 20 minutos antes dele nascer. Ela fez uma ausculta, coraçãozinho batendo lindamente. Eu pedia que ela ficasse onde eu pudesse vê-la. Eu não estava com medo dele nascer antes dela chegar, mas depois que ela chegou, não queria que ela saísse de perto. Hahaha. Vai entender.

Até que em uma contração a bolsa rompeu e a cabeça desceu, agora sim o circulo de fogo começou a queimar de verdade. “agora ele vem! Agora ele vem de verdade”

Eu e o Mykaell, com os dedos entrelaçados, ficamos sentindo a saída dele, primeiro o cabelinho, e depois que a cabeça saiu, o nariz e a orelhinha. Não sei descrever o quão maravilhoso foram esses minutos…

E então veio a ultima contração, empurrando-o completamente para fora de mim. Uma mistura de alivio, com paz, euforia e amor tomou conta de cada célula do meu corpo físico e espiritual.

 

“Oi neném! Oi neném! Ele é lindo! Você é pesadinho neném?”

 

É indescritível! Poderia dizer que estava envolta em uma atmosfera de puro amor! Era somente amor! Amor em uma forma que nunca tinha sentido! É a melhor sensação que um ser humano pode sentir! É a coisa mais prazerosa que existe na Terra! É transcendental! É divino!

Fiquei na piscina so mais um pouquinho, preferi sair e ir pra cama. A placenta saiu quando eu me levantei. Eu era pura alegria e euforia. O melhor sonho do mundo.

Bernadinho em contato pele-a-pele, Mykaell cortou o cordão.

Ele foi examinado: 3.860 kg, 53cm.

Maria Clara vestiu a primeira roupinha, o body que foi dela quando bebezinha.

E depois o ensaio da primeira mamada, até que nos saímos bem. Hahaha

E foi assim que tudo começou.

 

Em primeiro lugar minha mais profunda gratidão à Deus por me presentear com essa experiência!

Gratidão à minha mãe, meu esposo e minha enteada que nunca duvidaram de mim e se dedicaram no cuidado para que todo o meu sonho de gestação e parto se realizasse.

Gratidão às amigas enfs Ana Cyntia e Iara da equipe Luz de Candeeiro pelo mais que excelente acompanhamento no pré-natal, parto e puerpério! Como disse, você construíram em mim uma parideira! Sucesso para vocês!

Gratidão à enf Nayane da equipe Árvore da Vida por sua disponibilidade e carinho como backup no dia do parto e na consulta de puerpério.

 

RELATO DE PÓS-PARTO (vale?)

A memoria celular da sensação de sentir cada centímetro da cabeça do bebê coroando e forçando meu períneo as vezes ainda me visita quando toco na cabeça do meu filho (amo quando isso acontece).