Nascimento do Joaquim – Nathália e Conrado

Nascimento do Joaquim – Nathália e Conrado

Para quem sentia contrações desde as 37 semanas de gestação, a espera ansiosa pelos sinais do trabalho de parto era inevitável. Com outras palavras, as parteiras Ana Cyntia e Iara me diziam “Desapega, mulher! Entrega, que esse é o tipo de coisa que a gente não pode controlar”. E, de fato, Joaquim me ensinou que, por mais pragmática que eu seja, o mistério do nascimento é ser, cada um deles, um milagre fora de qualquer controle. Levei muito tempo para digerir o meu parto. E para isso precisei entender o que é parir e todas as suas significâncias.

Comecei por refletir sobre o significado da palavra parto. Substantivo ou verbo, dependendo da ocasião, pode representar o ato de parir, mas também o de partir. Em ambos usos, traz consigo o sentido intrínseco de mudança. As duas partes envolvidas nessa relação terão de deixar para trás a situação atual em que se encontram e com a qual estão acostumadas, sua zona de conforto, rumo ao desconhecido. E nele serão instadas a se deparar com o mais obscuro de suas existências.

A mulher muda em definitivo sua condição no mundo: de ser independente – e sem dependentes, no caso do primeiro filho – para a de mãe. O recém-nascido, por sua vez, troca o abrigo quentinho e restrito do útero materno pela imensidão fria e imprevisível da vida, que coloca todos os seus sentidos e sentimentos à prova.

Assim, me dei conta de que, por essas e tantas outras razões que fogem ao nosso racional, Joaquim não queria partir – ou ser parido. Pelo menos não na “data prevista do parto” (DPP), aquela convencionalmente calculada pelos médicos, que gira em torno das 40 semanas.

Lá pelas tantas 39 semanas, nós decidimos mudar de casa. Teríamos que fazer isso cedo ou tarde, então preferimos que fosse antes dele nascer. “Já que até agora ainda não veio, vamos fazer o movimento de fora pra dentro e ver se dá algum resultado”, pensei. Jogamos nossas coisas meio de qualquer jeito e só aprontamos o essencial para nosso cotidiano diário e o que precisávamos para receber o neném naquele novo lar. Para quem estava com medo de não dar tempo da mudança nem de minha mãe chegar, tivemos que ficar “matando tempo”, nos ocupando com qualquer coisa da casa que me distraísse daquela espera sem fim.

Já não estava mais trabalhando, tinha parado com as aulas de hidroginástica e yoga pelo cansaço do deslocamento – nossa casa agora é “na roça” e, portanto, temos que pegar um pedaço de uma estradinha de terra que, com a barriga do tamanho que estava, eu já não aguentava. Na verdade, nos últimos dias que resolvemos sair, para almoçar fora e pegar as últimas coisas na casa antiga, eu já ignorava a dor e só torcia para que aquele sacolejo todo ajudasse a apressar as contrações e trouxesse logo o meu menino.

O dia 10 de julho de 2014 (a tal DPP) passou, e nada. Veio a lua cheia, que disseram ter sido a maior do ano, e nada. Com o passar do tempo, comecei a ficar apreensiva e não conseguia mais pensar em outra coisa. Conrado, meu marido e companheiro, e minha mãe, Andréa, que já estava em Brasília vinda do Rio desde o dia 07, não sabiam mais o que inventar para me distrair e me deixar mais tranquila.

Comecei a arrumar preocupação com qualquer coisa que desviasse o pensamento da demora: o pessoal do trabalho, minha chefe, para quem eu não dava notícias fazia tempo mas que já tinha me dado carta banca para relaxar e me concentrar no que era mais importante naquele momento: o meu filho e o nosso encontro; o quartinho dele, que já estava super ajeitado, mas eu cismava que ainda faltavam detalhes e que era isso que não estava deixando ele vir, que ele só viria quando estivesse tudo pronto… enfim, sei que nessas fiz minha mãe e Conrado passarem um dia inteiro procurando O abajur certo pela cidade toda.

Depois que realmente já não faltava mais nada e não tinha mais o que inventar, ficamos só na espera. Todas as horas viraram vagas. Tomava banho no chuveirão lá fora, fazia depilação e tratamento nos cabelos, caminhava pelo jardim, fazia os exercícios da yoga, lia os livros de preparação para o parto – o que me deixava na verdade ainda mais ansiosa –, brincava com os filhotinhos da Imbira, cachorra do vizinho, e me assustava com o tamanho da barriga toda vez que me olhava no espelho.

Todo dia a gente falava “É hoje!”, eu olhava pro céu e pedia “Vem, meu bebê”, e nada. Os amigos e familiares já estavam em polvorosa, querendo saber se tinha acontecido algum progresso. Até a Lady, a boxer dos compadres Pri e Aluísio, pariu antes de mim. Nasceram dez filhotinhos muito fofos. Mas nem pra eles eu liguei muito. Estava agoniada com a demora e o porquê de tão arrastada saída.

Juntos há seis anos, eu e Conrado tivemos um período de quatro meses separados em 2013. Foi a primeira vez que ficamos distantes de verdade. Nos últimos dois meses dessa separação, ele viajou a trabalho e ficou em campo, incomunicável. Voltou de lá cheio de saudades e querendo muito me ver. Não reatamos logo de cara, ainda demorou um pouquinho para ajeitarmos algumas arestas, mas alguns chamegos e muitas conversas depois, estávamos novamente juntos e apaixonados.

Cerca de dois meses depois, a notícia da gravidez, descoberta de supetão quando estávamos a mais de dez mil quilômetros de distância um do outro (eu tinha ido à Polônia a trabalho e ele ficado em Brasília cuidando da casa e da nossa gatinha recém ganha, a Tulipa), nos pegou de surpresa e abalou todas as estruturas. Ele ficou radiante e eu, que sempre quis ser mãe e principalmente de um filho dele, feliz, mas um pouco em choque.

Demorei para assimilar a novidade mas, assim que consegui, virei a mulher mais feliz do mundo – fui pedida em casamento, casamos com lua de mel e tudo! Mesmo assim, ficava pensando se aquela apreensão inicial não teria afetado o desenvolvimento da minha relação com meu filho, se ele não teria sentido o meu receio com a sua vinda e se isso não estaria influenciando a sua saída agora, 40 semanas depois.

Sei que no meio de toda ansiedade e confusão mental, o que me tranquilizava era a traquilidade da Iara e da Ana, as médicas-enfermeiras-parteiras-amigas. Nossos encontros eram quase uma terapia e me faziam sentir muito bem e confiante. A essa altura, por exemplo, eu já tinha liberado vários mucos, de vários tamanhos e espessuras, uns com sangue, outros sem. Mandava fotos para elas e a Iara só respondia coisas como “Lindo tampão!!”, “Maravilha!”, estrelinhas, exclamações, estrelinhas… Eu então pensava “Bom, se elas estão tranquilas assim, eu também tenho que ficar”.

Mas não tinha muito jeito, com o passar dos dias a agonia aumentava. Elas mesmas já tinham combinado que, se não nascesse até a quarta-feira, dia 23/07, iríamos iniciar o processo de indução: primeiro descolar a placenta manualmente e, depois, as manobras médicas com o Dr. Bruno. Mas eu não queria nada daquilo, nada que interferisse no curso natural da vida e do nascimento. Queria sentir as dores que trariam meu bebezinho ao mundo, queria entrar de cabeça no trabalho de parto, queria uma viagem à famosa Partolândia.

A vinda dos familiares, cuja escala de visitas tínhamos montado tão certinha para que cada “grupo” ficasse um pouco de tempo sem nos sobrecarregar, também era outro motivo para preocupação. À medida que o tempo passava, as chegadas se aproximavam e o neném que é bom, nada! O voo da minha sogra, Magda, estava marcado para o sábado dia 19 e eu só pensava em como iríamos fazer com ela na hora do parto.

Pensava também que o quartinho dele ainda não estava completa e perfeitamente arrumado para sua chegada, que os materiais para o parto domiciliar não eram suficientes – ainda faltava a mangueirinha para encher a piscina, que não achávamos em lugar nenhum… Me preocupava com a casa que, mudados há apenas duas semanas, não estava arrumada do jeito certo e necessário, mas também não tinha ânimo àquela altura, nem força emocional ou física para fazê-lo.

Enfim, a verdade é que naqueles momentos de ansiedade e apreensão eu desviava o foco para toda e qualquer coisa secundária, menos importante, sem me concentrar no que era mais primordial do que tudo aquilo que girava periférico ao redor: a chegada do meu primeiro filho.

Minha mãe segurava a onda da família e amigos mais próximos, que perguntavam a toda hora, ansiosos por alguma novidade. Eu era poupada de toda essa pressão externa, mas no fundo sabia que aquilo estava acontecendo e me deixava perturbar.

Logo que passaram os dias 10 e 12 (meus primeiros palpites), e a lua foi começando a minguar, eu, que estava intranquila e inquieta, comecei a entregar a Deus, à natureza, ao universo, ao Grande Mistério, e a perceber que realmente eu não controlava nada, que tudo aquilo era maior do que eu e fugia aos meus comandos.

Meu semblante foi se acalmando e fui serenando aos poucos. Os passeios na rua, que antes eram puro “engana-mente”, foram se tornando distrações e descansos reais para meus pensamentos atordoados. Minha ansiedade não estava deixando eu relaxar. Então quando vi que até o signo dele, antes tão certo para mim – câncer –, poderia não ser mais aquele que eu pensava, me desarmei. E as coisas começaram a fluir. Voltei a rir de bobagens como seriados de TV. Minha mãe percebeu a diferença e me disse “Agora está vindo, tenho certeza!”

Já enorme dentro da barriga, Joaquim beirou o limite das 42 semanas e precisou – quer dizer, eu era quem realmente estava precisando – de uma forcinha extra para resolver sair. Na quarta-feira, dia 16/07, na consulta de pré-natal (esta que seria a última, mas a gente ainda não sabia), as parteiras aconselharam uma acupuntura pra tirar qualquer nó emocional que estivesse atrapalhando o processo.

Na quinta, então, fomos ao posto de saúde de Planaltina, para uma consulta com a Dra. Renata. Ela estimulou alguns pontos, como lombar e lateral do joelho, que remetiam ao medo e à ansiedade e que me fizeram debulhar em lágrimas. Foi choro que não parava mais até acabar a sessão. Botei tudo aquilo que estava preso para fora – menos o neném, é claro! Uma descarga de energia daquelas que o Conrado até se assustou. Na saída ele perguntou “Por que tanto choro, amor?”, para o que eu só respondi “Não se preocupa, tá tudo bem! Foi só uma lavagem interna mesmo!” Saí de lá renovada.

Nesse dia também fomos almoçar num restaurante japonês – me dei ao luxo de comer sushi! E fizemos ultrassom na Maternidade Brasília, a pedido das parteiras. Preferi mentir a idade gestacional para me poupar dos questionamentos médicos e da encheção de saco protocolar de hospital. Apesar do cansaço, estava tudo perfeitamente bem comigo e com o bebê, afinal.

A Dra. Renata também tinha me passado uma receita para o “chá da bruxa”, da parteira Naoli. Saindo do restaurante, comprei todos os ingredientes e tomei tudo que podia daquela mistura doida, apimentada e boa. Além disso, ela nos aconselhou a irmos a um templo tentar “curar” qualquer ferida que ainda pudesse estar aberta por conta de um aborto que fiz há alguns anos – eram outros tempos, outros atores envolvidos, mas como toda experiência desse tipo, não tinha sido nada fácil à época.

A princípio relutamos, pois não acreditamos muito na atmosfera de culpa imposta pela igreja e pela sociedade em torno da opção feminina de interromper uma gestação – sejam quais forem os motivos para tanto. Mas no fim, como nada mais adiantava, resolvemos testar tudo que nos haviam recomendado, inclusive isso. Na sexta, dia 18, então, voltamos para mais uma última sessão de acupuntura, essa mais tranquila, mais leve, sem lágrimas. Saindo de lá, fomos direto ao templo.

Chegando, mais ou menos como prevíamos, o discurso da culpa x perdão perdurou e nós, que queríamos nos sentir acolhidos, ficamos desconfotáveis. E eu saí de lá convencida de que o que estava atravancando a passagem do meu bebê, de verdade, não era isso. De todo modo, talvez eu precisasse mesmo também dessa certeza.

No caminho de volta para casa, eu e Conrado tivemos uma longa e sincera conversa. Falamos sobre esse e outros assuntos que ainda estavam entalados – sobre o tempo em que ficamos separados e situações anteriores a tudo que nos aguardava daquele momento em diante. Depois, paramos numa floricultura e compramos plantas e temperos para a casa nova. Senti que essa combinação de conversa aberta com meu companheiro + símbolos da natureza curou mais feridas do que qualquer templo poderia curar.

No sábado, 19, fomos almoçar fora. No restaurante Mangai, de comida nordestina, comi tudo que tinha direito e saí de lá pesando mais quilos além dos 20 que eu já tinha ganho durante a gravidez. No fim da tarde, chegou a minha sogra. Fizemos um lanche e vimos um filme.

Durante a noite, com sono inquieto, acordei algumas vezes por conta de contrações ainda leves e espaçadas. Acordei na manhã do dia 20, tomei um suco de melancia e comi dois pães de queijo. As contrações iam e vinham, iguais às que sentia desde as 37 semanas. Mesmo assim, sentia que alguma coisa no ar estava diferente. Chamei o Conrado para dar uma volta no jardim. Pés descalços, braços dados, passeamos, provamos frutinhas da estação, e eu perguntei “Você já pensou o que fazer com a sua mãe quando chegar a hora? Porque eu tô achando que é hoje…” Ele me olhou meio rindo, meio assustado, com aqueles olhos enormes que a Terra há de comer, e falou “Não se preocupa que eu já planejei tudo: vou ligar pro Pohi (o dindo) e ele vem buscar. Inclusive, já falei com ela e está tudo certo!”

Com isso me tranquilizando, disse a ele que as contrações continuavam fracas, mas estavam mais próximas umas das outras. Ele me mandou avisar logo as parteiras. Eu achava que era bobagem, que não precisava, porque o Conrado se alarmava com tudo e qualquer coisa me mandava ligar para as parteiras! Quando saiu meu primeiro tampão, mandei uma foto para a Iara ver, claro, pois queria ter certeza se era isso mesmo. Mas depois, como eu era uma “fábrica de fazer tampão”, como elas mesmas disseram durante o parto, eu parei de enviar porque já sabia do que se tratava… Mas pelo Conrado eu mandava a foto de cada um deles, o que daria até pra fazer um álbum de tantos que eram a cada dia!

Mesmo assim, fiz como ele pediu (até porque, se não fizesse ele mesmo faria…). Mandei uma mensagem no grupo que a Ana criou no whatsapp, “Nascimento do Joaquim”, e contei como estava. Era o dia do Arraiá do Luz de Candeeiro (grupo de parto humanizado do qual fazemos parte). A Iara respondeu dizendo que eu tinha feito muito bem em avisar, que era para continuar monitorando e que elas estariam por perto da minha casa à tarde, que qualquer coisa corriam pra lá.

Surpreendentemente tranquila, como não ficava há muitos dias, eu só disse “Ok, mantenho vocês informadas”. Não comentei com nenhuma das mães – nem a minha, nem a dele – e fui deitar para tentar domir um pouco e contar direito o espaço entre elas. Era por volta de meio-dia. Não deu 15 minutos, veio uma contração muito forte, eu senti uma dor fulminante e corri pro banheiro. Me joguei no chão, arranquei o vestido que me vestia e gritei pelo Conrado. Estava começando.

Assim que a cabecinha dele apareceu na porta, esbaforido, a bolsa rompeu fazendo uma poça no chão. Ele me colocou no box, debaixo do chuveiro, deixando escorrer água quentinha na lombar, “porque as parteiras disseram que isso ajudava a apartar a dor” (fofo!). Enquanto isso, ele foi fazer a parte dele: avisar as parteiras e ligar para o Pohi buscar minha sogra. Minha mãe ficou a postos, mas eu não quis que ela entrasse no banheiro até que as meninas chegassem – não queria muita gente ao redor naquele início.

Eu já não conseguia mais me comunicar direito, só acenava “sim” ou “não” com a cabeça e balbuciava algumas palavras quando extremamente necessário. Emitia sons saídos do infinito interno de mim, e que hoje não saberia repetir. A Iara chegou em 20 minutos e a Ana já estava a caminho – não tínhamos planejado mas, sim, a gente tinha estragado o Arraiá delas! rs

Já totalmente imersa na Partolândia, eu vi a Iara como via uma fada ali olhando por mim. Era um alento conhecido no meio daquele turbilhão de sensações desconhecidas. Ela me chamou e me levou para a cama, para fazer o exame do toque e medir a dilatação. Deitei, abri as pernas e… 8cm! Ufa, então seria rápido. Será? Mais umas quatro horas se passaram até que o restante do colo se abrisse.

Enquanto eu ia me virando com as dores, “minha equipe” se virava em mil para encher a piscina, arrumar os equipamentos, aquecer o quarto e deixar tudo pronto. Eu via de relance a movimentação toda. Em certo momento, as fraldas de pano que foram compradas para o parto não estavam sendo encontradas. Eu percebi o Conrado dizendo “Não vou perguntar isso pra ela agora”, e apontei logo pra gaveta da cômoda, onde eu achava que estavam. É, tudo que eu li e ouvi sobre esse momento era mesmo verdade, a gente sai de cena, entra em transe, mas não se desconecta totalmente.

O sol ia baixando e o dia virando noite. Mas parecia que o tempo não passava e que aquilo não ia acabar nunca mais. Em um momento me lembro que olhei para o relógio da cozinha e já eram 16h! Um alívio… Ainda estava em pleno trabalho de parto, mas ver que as horas estavam realmente passando me deu mais força para continuar. Assim fui, respirando e mudando de posição o tempo todo: da cama pra banqueta, da banqueta pra piscina, da piscina pro chão. As parteiras depois me disseram que há tempos não viam mulher tão agitada!

E fica de cócoras, vira de quatro, pendura na rede, sobe escada, desce escada, caminha, rebola; e sua e geme e reclama de dor nas costas… ai, as costas! Sentia meus quadris se esgarçando, uma dor sem parâmetros. A água quentinha da piscina era um delírio, um verdadeiro oásis no meio daquele deserto sem fim. Era onde eu conseguia relaxar e esquecer por segundos aquela dor quase insuportável. Mas esse relaxamento todo não me deixava fazer a força necessária para a expulsão. Tanto que, em certo ponto, eu estava na banqueta e pedi quase implorando pra ir para a piscina relaxar um pouco a dor da lombar. Mas a Iara não deixou. Disse que se eu fosse naquele momento perderia tudo que tínhamos conquistado até ali.

Joaquim era muito grande e descia milimetricamente pelo canal vaginal. É bem verdade que eu não sentia palpável a evolução da descida dele. Mas acreditava quando elas falavam “Muito bom, Nat, perfeito. Ele está mais perto, está vindo!” Me lembro também de sentir raiva quando elas falavam isso. “Ora, se está tudo tão perfeito, porque eu não vejo nenhuma mudança!? Cadê ele que não chega, meu Deus?!!”, eu pensava. Me recordo de ter soltado algumas vezes uns “Eu não aguento mais!”, muito por causa da dor nos quadris, mas não de ter dito “Eu não consigo”. Pode ser que eu tenha dito. Mas se disse, não guardei. Sei que quase não tinha tempo pra pensar em desistir, tão próximas e intensas eram as contrações.

Das oito horas totais, lembro claramente de alguns poucos momentos, do resto ficaram só flashs na minha memória. Lembro do Conrado tentando acariciar as minhas costas e eu tirando a mão dele, mandando ele parar dizendo que o carinho estava no lugar errado (?! E lá tem lugar certo pra fazer carinho? Tadinho…). Lembro da Ana me fazendo massagem na lombar com um óleozinho e me abanando com a prancheta. Lembro da minha mãe que nem formiguinha atômica de um lado pro outro documentando e ajudando na preparação. Lembro da Iara sentadinha esperando, olhos fixos nos meus, séria e serena ao mesmo tempo. Lembro do Conrado com dor nas costas indo pro banheiro, mas dizendo que estava tudo bem – ele tem várias hérnias de disco e sofre com elas desde os 17 anos. Lembro de uma hora ter tido vontade de dar um beijo nele e dizer “Te amo”, mas a próxima contração veio logo em seguida e eu não consegui.

Lembro de comer mel e banana a força. Lembro que as únicas coisas que eu fazia era pedir água e fazer sinal de calor com as mãos. Lembro que pensei “Que ideia de girico ter parto normal, nunca mais!” Lembro da sensação de acalanto com o barulho e o cheiro da chuva forte que veio, em plena seca do Cerrado, quando Joaquim já estava quase chegando. Lembro que era doído, mas não lembro exatamente da dor. Lembro que achei uma eternidade, mas hoje quando conto para os outros acho oito horas super light! Lembro de estar cansada demais, mas não de ter tido medo. Lembro da confiança que as meninas me passavam e do aconchego de estar em casa. Lembro da Iara dizer “O cabelinho dele é preto!” Lembro de estar nua e de meias. Lembro que a banqueta era a coisa mais desconfortável do mundo, mas também a mais eficiente.

Mesmo com as suas ferradas, Conrado foi as minhas costas naquela banqueta dura e sem encosto. Apoiada nele e amparada por ele foi que eu consegui força para as contrações finais que trouxeram nosso menininho. A cabeça chegou rasgando tudo. E ficou ali fora paradinha até a próxima contração. Como eu não quis olhar para baixo, concentrada no esforço que viria a seguir, minha mãe falou: “Ná, a cabecinha dele já está na mão da Iara!” Já com o corpo na portinha, ele me dava cotoveladas como quem diz “Vai logo, que eu quero sair!” Finalmente…! E a saída do resto do corpo foi uma catarse total. Foi como um vômito curando qualquer mal-estar.

Com 41 semanas e 3 dias, segundo a contagem “oficial”, Joaquim chegou ao mundo. Pesando 4,360kg e medindo 53cm, um cancerianinho preguiçoso, de personalidade forte e cheio de vontades veio à luz às 20:25 de 20 de julho de 2014 – o primeiro dia do resto da minha vida.

Minha mãe conseguiu documentar tudo até aí, já que a bateria da máquina acabou justo nesse momento. Mas daí em diante eu lembro de tudo. Recebi meu neném no colo e ele só chorou quando a Iara mexeu para ajeitá-lo. Ficamos assim um tempinho: eu abraçando ele e Conrado abraçando nós dois. Depois fomos para a cama, a Iara colocou ele para mamar – que sensação deliciosa a de alimentar meu filho! Conrado cortou o cordão e eu desandei a falar. Falei tudo que não tinha falado durante aquelas oito horas. E a Iara disse “Toma, Conrado, tua mulher de volta!”

Todos no quarto eram emoção pura. O mundo ficou mais colorido. Mas… péra! “Um parto só acaba quando sai a placenta”, elas sempre falavam. Pois é, e a placenta não tinha saído ainda. Sem pensar nisso, feliz da vida que o pior já tinha passado, eu virei para as meninas e disse “Queria dizer que eu confiei muito em vocês, desde a primeira vez”. Foi a deixa para a Ana olhar pra Iara e me dizer “Nat, a gente vai ter que fazer uma manobra, porque a sua placenta está colada, ta?” “Ok”, eu disse, sem pestanejar. Foi a dor maior de todas. A Ana enfiou o antebraço inteiro em mim pra puxa (uma parte da placenta estava presa e o cordão rompeu, então ela teve que puxar para parar sangramento). E ela veio inteirinha, pulsando ainda. Em seguida ela deu os pontos, limparam o bebê e nos deixaram. As duas foram lá pra for a, pois tinham lembrado de fazer alguma coisa… Ah, sim, “respirar!”, depois elas me contaram (rs).

Por tudo isso e muito mais, só tenho a agradecer. A elas, que foram minhas fadas-madrinhas, toda minha reverência. Ao meu companheiro de vida, todo o meu amor, agora também em forma de gente. À minha mãe querida, toda minha admiração – hoje eu entendo tudo! Ao meu pequeno, toda a minha dedicação e gratidão.

Obrigada, filho, por me escolher para ser seu portal, por me fazer sentir uma heroína por instantes, por me trazer toda a coragem e dissipar todo o medo, por me ensinar a ser mais mulher e menos menina, por transformar meu mundo para sempre. Obrigada por me dar tanto e me revelar o maior e melhor sentimento do mundo: o prazer do amor de Mãe.