Relato de pai: nascimento da Clara

Relato de pai: nascimento da Clara

Antes de engravidar ou de saber que seria pai, eu já sabia como as coisas funcionavam. Mas sabia pouco. Talvez por achar que tal informação me afetaria apenas parcial e indiretamente. Como em muitas ocasiões da vida, nas quais fazemos distinções de gênero, ledo engano.

A decisão de ter filhos é dela, é minha, é nossa; A gestação é dela e é nossa; A necessidade de informar-se é nossa. O parto é um direito nosso.

A saga em direção ao parto, neste país, sabemos, é espinhosa. Cheia de armadilhas, falsas conveniências (pois, em relação à saúde, em nada são convenientes), atalhos falaciosos. Quase sempre se chega à mentira – ao desrespeito, à desapropriação do corpo da mulher, à invalidez de seus instintos e estímulos naturais. A propósito, essa é a única vez que pretendo citar a palavra natural aqui, no singular ou no plural. A própria natureza (quase falhei!) dessa discussão do sentido dela, aqui, não serve. Crianças nascem, mulheres parem (do verbo parir). Isso é tão óbvio que prescinde de adjetivações ou quaisquer acompanhamentos à palavra parto.

Portanto, para se chegar ao parto, é preciso saber mais. Isso, a meu ver, inclui pura e simplesmente leitura, exercício de cidadania, uma dose de senso crítico e, claro, bastante paciência. Com esses ingredientes, eu e Sarah acertamos a parceria com duas enfermeiras obstetras que mantêm uma empresa denominada Luz de Candeeiro. A escolha e a consolidação da parceria fortaleceram nossos valores e credenciou ainda mais nossa decisão, pelo parto. A sequência de consultas fez a nossa empatia por elas aumentar e, creio, a confiança da Sarah diante de seu corpo se multiplicar. Nós entramos na reta final da gestação no início de novembro. Após alguns alarmes falsos (dias 10 e 11) – contrações que não resultam em trabalho de parto – a Clara finalmente deu sinais de sua chegada, no dia 16.

A Sarah começou a ter contrações cerca de 5:15h da manhã. Porém, as ocorrências delas estavam até então muito espaçadas e não apresentavam uma sequência constante (era eu quem monitorava). Não obstante, o intestino dela não parava de funcionar e ela ia ao banheiro constantemente, se queixava de contrações mais fortes e emitia alguns ruídos estranhos (indícios de entrada em trabalho de parto).

Depois de 8:30h as contrações adquiriram um ritmo constante, com a diminuição dos intervalos entre uma e outra. De seis em seis minutos, três em três minutos…Esse sim era o sinal maior de que agora não se tratava mais de alarme falso. Ela estava mesmo em trabalho de parto, parecia.

As enfermeiras obstetras, que já tinham pedido para eu não ir ao serviço (conversávamos por whatsapp desde 5:30h da matina), se dirigiram para casa lá pelas 9:15h. Ao constatar que já havia dilatação de 6-7 cm, foi confirmado o trabalho de parto.

Posicionamos a piscina, no centro de nosso quarto. Ela ficou lá quase o tempo todo, alternando posições – sob orientações das duas enfermeiras. Diga-se de passagem, a postura delas foi muito respeitosa e discreta, durante o parto. Ressalta-se o protagonismo da mulher mesmo (a parturiente). Quando resolveu tentar a posição cócoras, fora da piscina e com a minha presença segurando-a atrás, a Clara “desceu”. Nasceu às 12:58h. Arredondando, foram cerca de 4h30min de trabalho de parto (mais um mito caiu…aquele q diz que “sempre dura mais de doze horas”, “ainda mais no primeiro filho, que vai durar mais de vinte”…hehehe).

A cena foi algo inigualável pra mim. Em instantes (talvez dois segundos) ela foi pro colo da Sarah e eu, sentado logo atrás, posso afirmar que “a segurava” tb. Durante a aparição e descida dela, acompanhei tudo de camarote, pois a Sarah ficou de frente para o espelho (corpo inteiro) de nosso quarto. Então pude visualizar tudo mesmo. Com o quarto a meia luz, num dia nublado e clima agradável, ela chegou. Sarah em seguida foi pra cama, com ela ainda nos braços. Alguns instantes (talvez doze minutos) e a Clara “pegou o peito” e já mamou. Fantástico.

Eu não sei o que se passa na cabeça dos humanóides, os quais parecem não crer que crianças nascem. Sim, elas nascem. E esse processo, além de prescindir de uma cirurgia, é algo tão belo que nem dá pra explicar. Eu não trocaria a primeira olhada na minha filha, numa distância de menos de 15 cm e no segundo minuto que ela nasceu, por nenhuma garantia que a tecnologia conseguiria me dar ou supostamente o faria!