Relato de parto da Le, nascimento do Gamaliel

Senti a gravidez como fazer uma trilha em meio ao belo Cerrado, lá estava eu com uma pequena mochila com pouquíssimos elementos, pronta para caminhar, pronta para fazer uma travessia e transmutar do eu menina – mulher para o eu mulher – mãe.

O caminho foi lindo, cheio de descobertas, de novas informações incríveis que guardei em minha mochila. Alguns dias a caminhada ficava mais densa com subidas íngremes, mas logo conseguia parar, contemplar a vida, respirar e agradecer a oportunidade de ter um outro ser sendo gerado em mim, o amado Gamaliel.

Cheguei na beira do grande rio para a travessia, se passaram 9 meses. Estava sentada na beira do rio, entregando ao meu corpo a sabedoria do parir. Nesse momento de espera final é possível sentir toda a intensidade da natureza, os ventos, chuvas, calor e frio.

No dia 18/03/2021 ( 36 semanas + 6 dias de gestação) acordei com algumas dores, logo elas se intensificaram. O Zé, meu lindo companheiro de jornada me convidou para ter coragem e começar a contar o ritmo entre as contrações. Elas passaram a vir de 2 em 2 minutos.

Vamos para a Casa de Parto…era por volta de 8h, uma quinta-feira ensolarada em Brasília. Ao chegarmos 1º exame do toque – 1 cm de dilatação; era necessário colher meu sangue para o último exame de plaquetas (tive plaquetopenia a partir da semana 36 de gestação e o parto precisava ser em ambiente hospitalar).
Fui para o chuveiro, contrações continuavam, ritmadas, doloridas, a água quente sagrada me ajudava a aceitar, entregar, aproveitar aqueles minutos, eu já estava perdendo a noção do tempo.

2º exame de toque – 7 cm de dilatação. Vamos para maternidade. Me secaram, colocaram a roupa de volta…

Cadeira de roda – elevador – carro – sol quente – trânsito – dor.

Zé na direção me transmitindo segurança, que logo íamos chegar e que tudo estava dando certo. Chegamos na maternidade, contrações mais fortes, fechei o olho e só continuei vocalizando, gritando – lá vamos nós – cadeira de roda, sala de triagem, mais exames de sangue, não conseguia responder as perguntas das enfermeiras. Contrações na cadeira de rodas, eu querendo levantar, mas não podia, era preciso esperar. Senti a cadeira de rodas andando, pensei “Ufa! Vamos para o quarto”. Ouvi uma voz avisando que a doutora Bárbara tinha chegado e me senti aliviada.

Corredor – dor – olhos fechados – porta

Uma sala cirúrgica, mil aparelhos, luzes, relógios, a enfermeira querendo me colocar na maca. Na minha mente só repetia “ Entrega, entrega”.


Bárbara chega e pede para as enfermeiras colocarem lençóis em um cantinho no chão, banqueta, “Ufa!, fiquei tão feliz em ganhar um cantinho de lençóis”. Fechei os olhos, virei para a parede, não queria ver relógios e aparelhos, só os lençóis, sangue e água escorrendo entre as pernas.


Contração – respira – contração – respira

Zé me segura, não consigo mais levantar da banqueta. Respira, respira. Só as mãos dele e a voz no ouvido de que eu estava indo muito bem, me mantinham ali confiante. Abri o olho e só naquela hora vi a Barbara querida, ela olhando pra mim e dizendo que estava ótima, que Gamaliel estava chegando.


Grito- sede- grito- suor- grito- vontade de chorar.

Ouvi a voz da Barbara: “Lê foca sua energia na força, lá embaixo, já to vendo a cabecinha dele”
Força, força que nem sabia de onde tinha e dor que nem sabia que meu corpo era capaz de suportar.

Saiu! Olhei para o pequeno: “Bem vindo! Estávamos esperando por você!
E assim ele chegou, depois de 6 horas de trabalho de parto intenso, não tive sangramento além do normal, não tive laceração, tudo perfeito. Gamaliel perfeitinho.

A placenta saiu e fiquei ali admirando a lindeza da primeira casa do Gamaliel, que perfeição. Cortei o cordão umbilical que ainda pulsava mesmo depois de 15 minutos de espera. “Vai filho, agora é com você, estaremos aqui para te apoiar em tudo, todo dia


Deitei na maca, Gamaliel no meu peito, queria ficar ali com ele, descansando, sentia força, alegria e cansaço.
Alessandra mulher – mãe nasceu, terminamos a travessia. Gratidão Deus por partilhar a co criação da vida com este corpinho aqui.


Ele logo abriu o olho, viu o pai que também tinha acabado de nascer.
E assim iniciamos a nossa trilha, agora com 3 pessoas de mãos dadas, a partir da outra margem daquele belo rio.

Olhei para trás, vi as águas fluírem, chorei com elas, sangrei, agradeci.
Agradeço às tantas pessoas que vibraram, que oraram, aos profissionais incríveis que cuidaram do Gamaliel dentro do hospital (o pequeno passou parte de sua primeira semana de vida na UTI tratando uma icterícia).

Agora, já em casa, agradeço à família que nos deu todo o suporte. Ao Zé pela mais incrível e amorosa parceria, ao Gamaliel por ter me proporcionado a experiência de parir e à equipe da Luz de Candeeiro por proteger o parto humanizado, por acreditarem de corpo e alma no que afirmou Michel Odent:

“Para mudar o mundo, é preciso, primeiro, mudar a forma de nascer”
Sigamos a caminhada.

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