Por que eu escolhi um parto normal fora do hospital

Primeiramente, minha esposa e eu nunca tomaríamos uma decisão que colocaria nosso filho em risco, nem eu em relação a ela. Decidimos por essa equipe por ser altamente qualificada, com experiência e que nos deu bastante segurança. Acima de tudo, escolhemos uma equipe treinada, cuja prática se baseia em muito estudo e muita ciência. Para encerrar o assunto, achei melhor colocar aqui os principais argumentos – e as fontes bibliográficas – que fundamentam nossa decisão.

Nos últimos 5 anos, reconheceu-se que o Brasil vive uma “epidemia de cesáreas”: 55% dos nascimentos no total, e em torno de 86% dos partos na rede privada. Ademais, a OMS estabelece que o ideal é que as cesáreas não ultrapassem 15% dos nascimentos, justamente os casos em que a gravidez é de risco. Ou seja, é legítimo questionar por que aqui no Brasil há essa prática de o parto ser feito por uma cirurgia..

A questão que se coloca aqui é que a grande maioria dos médicos acaba dirigindo a abordagem para se fazer uma cesárea. Há muitos motivos para isso, um deles é a comodidade dele, já que o parto ocorrerá em ambiente controlado e conforme sua agenda. Outro é o dinheiro. Conforme o estudo “Nascer no Brasil”, da Fiocruz , em torno de 70% das mulheres no início da gestação manifestam o desejo de realizar parto normal, contudo apenas 15% delas acabam conseguindo fazê-lo. Destaco este trecho: “houve uma mudança da decisão em relação ao tipo de parto que não pode ser explicado pela ocorrência de problemas e complicações”. Ou seja, os médicos forçam para as mulheres a cesárea para muito além dos casos em que ela é de fato necessária.

O curioso é que, segundo o Conselho Federal de Medicina, há mais mortes de mulheres em cesáreas do que em partos normais: 20,6 por cada 1000 cesáreas e 1,73 por cada mil partos normais.

Portanto, esse modelo imperante no Brasil é conhecido como parto “medicalizado”, ou “high tech”, e leva frequentemente a intervenções obstétricas desnecessárias, perigosas para a saúde da mãe e do bebê e financeiramente custosas: “Fish can’t see water: the need to humanize birth”, International Journal of Gynecology & Obstetrics 75 (2001).

Superada essa questão, passo agora para as discussões sobre o parto normal.

O ponto central aqui é que mesmo o parto normal, tal qual praticado por médicos “tradicionais” ou “mainstream”, não escapa à lógica dominante das cesáreas. Isto é, mesmo aqui, técnicas criadas para situações excepcionais acabam sendo utilizadas para agilizar o processo, independentemente da real necessidade delas e da vontade da mulher. Afinal, o médico não quer perder tempo, tem agenda do consultório e a remuneração de um parto normal é inferior à de uma cesárea.

Chamo a atenção para 3 procedimentos: litotomia [posição horizontal], episiotomia [corte entre a vagina e o ânus] e a Manobra de Kristeller [empurrar a barriga para forçar a saída do bebê].

A litotomia não leva em conta algo elementar em nossas vidas: a força da gravidade. Fazer parto em posições verticalizadas é prática recomendada pela OMS. Ademais, a adoção de posições verticalizadas resulta em menor duração dos primeiro e segundo estágios do parto, em menos intervenções, menos dores, embora esteja associada a um maior volume de sangramento “What are the facilitators, inhibitors, and implications of birth positioning? A review of the literature”, Women and Birth (2012) 25, 100—106.

Quanto à episiotomia, não há evidências científicas que justifiquem seu uso rotineiro, nem mesmo benefícios para as mães e os bebês Selective versus routine use of episiotomy for vaginal birth (Review), Cochrane Database of Systematic Reviews 2017, Issue 2 .

Os estudos sobre a Manobra de Kristeller ainda seguem inconclusivos no geral, no entanto não há indícios de que o uso de cinta inflável [que faz pressão na barriga] junto com anestesia epidural seja benéfico para o bebê- Fundal pressure during the second stage of labour (Review), Cochrane Database of Systematic Reviews 2009, Issue 4.

Com isso, chega-se à parte final. Por que parto humanizado?

Primeiro, o humanizado significa colocar a mulher no centro das atenções e dos cuidados médicos e de enfermagem, dando-lhe controle sobre o que pode ser feito – desde que, obviamente, não se trate de uma situação de risco iminente à sua vida e à do bebê. Com isso, afasta-se a atitude do médico de querer resolver logo as coisas porque ele tem mais o que fazer da vida. Ademais, confere-se primazia à parte biológica e ao primeiro contato entre mãe e filho logo que ele nasce. Tudo isso com acompanhamento da equipe médica. Não se trata, pois, de um parto debaixo de um cajueiro no meio da natureza. Longe disso.

As profissionais com quem entramos em contato constituem, na verdade, uma equipe composta por médicas-obstetras e enfermeiras-obstetras, que participam desde o pré-natal até o pós-parto. O foco delas é, em se tratando de uma gravidez de baixo risco, fazer parto normal sem o uso rotineiro e automático daquelas técnicas. Se for o caso de gravidez de risco, elas fazem, sim, a cesárea, de acordo com o que a OMS recomenda, inclusive. Esse tipo de abordagem representa apenas 5% dos partos aqui, mas 40% no Reino Unido, por exemplo.

O parto humanizado influenciou as mudanças ao “Modelo de atenção ao Parto e ao Nascimento”, que redundou no programa “Rede Cegonha”, no âmbito do SUS. Tratou-se de uma iniciativa de redução das cesáreas e daqueles procedimentos rotineiros dos partos normais. Não por acaso, naquele estudo da Fiocruz, “Nascer no Brasil”, os hospitais que alteraram seus procedimentos – no sentido de humanizar o parto – tiveram melhores resultados entre os recém-nascidos.

A decisão para essa abordagem está baseada em um pré-natal que irá caracterizar todos os fatores de risco envolvidos. Se houver algum durante a gravidez, ou ocorrer alguma intercorrência no momento do parto, o plano B será uma cesárea na Maternidade de Brasília com os obstetras dessa mesma equipe. Lembrando que esse plano B não é espontâneo, isto é, há procedimentos bastante claros e já estabelecidos, com a Maternidade de Brasília de sobreaviso e uma ambulância à disposição.

Não pense que essa é uma decisão irrefletida, ou baseada em ideias que não encontram qualquer respaldo científico. Houve muita reflexão e, como você pôde notar, há sim embasamento técnico.