Parto da Fran, nascimento da Helena

Nunca uma dor foi tão bela

Nascer pra mim sempre foi algo natural, normal. Vó, mãe, tia, primas… As mulheres da minha família pariram. E comigo seria assim também. Pra ser sincera, nem achava que precisava de tanta preparação, tanto estudo, tanta busca e luta… Mas, como paciente da rede particular, via convênio, sabia que as coisas poderiam não acontecer tão naturalmente assim. Além disso, e talvez principalmente, os dados sobre violência obstétrica – violência essa que atinge com mais crueldade as mulheres negras (como todos os indicadores mais infelizes…), me apavoravam. Era preciso tomar as rédeas do meu parto.
Comecei a fazer o pré natal com uma médica do plano, que não acompanha mais parto normal. Eu poderia pagar um obstetra ou ir pro plantão da maternidade – se eu tivesse acompanhada por uma doula, por exemplo, as chances de ter o parto como eu queria aumentavam. Só que ainda não era o que eu queria… Não queria ter um parto em que eu tivesse que ficar me defendendo o tempo todo

Acontece que, graças a Deus, algumas coisas encontram a gente, né? Uma colega do trabalho, também grávida, me falou de uma equipe de parteiras, a Luz de Candeeiro, que estava construindo uma casa de parto. Opa! Essa mesma equipe tinha assistido um colega do marido e sua esposa, em um parto domiciliar. Elas também estavam acompanhando outra colega do trabalho… Como assim, de repente um monte de gente? O marido gostava da ideia do parto na nossa casa… A possibilide de ir pra uma casa de parto foi bem recebida pelo meu coração… Confirmamos presença num evento, Casa Aberta, em que elas apresentam o trabalho e falam sobre o nascer, o parir. Tão bonito, simples, complexo! Fez todo sentido pra nós! Era assim que queríamos que nossa Helena nascesse! Na nossa data provável, a Casa de Parto estaria pronta. Então, era só esperar….


Uma espera ativa, em que li bastante sobre o parto e sua fisiologia. Vi documentários, li relatos de parto, estudei, conversei com amigas, fiz fisioterapia pélvica, pilates. Uma amiga disse que eu tava a louca do parto. Enxoval e quartinho não me interessavam tanto… Talvez por eu já saber que o parto seria definitivo na minha vida… Talvez pelo medo mesmo… Um dia minha afilhada de 8 anos perguntou: Dinha, como você acha que a Helena vai nascer? Eu pensei: vixi, será que falo que é pela vagina? Perguntei pra ela: como assim Bibi? E ela: ah, eu acho que ela vai ser morena, com cabelinho cacheado. Ufa! Kkkk


Fizemos o restante do pré natal com as enfermeiras e foi tão bom, tão acolhedor, tão potente. Eu era tranquilizada de todos os medos e dúvidas (que eram muitas), era elogiada (um dia a Ana Cynthia disse que eu era uma maravilhosa fábrica de fazer bebês, uma grávida de livro e, na carência e insegurança da gravidez, foi muito importante ouvir isso…) e apaziguada das minhas tensões. Porque, apesar da crença no processo natural, as tensões vieram com tudo. Assim como a vontade de ter controle sobre tudo.
Quando eu estava de 38 semanas a casa de parto foi oficialmente inaugurada. Ia acontecer! Na consulta coletiva de 38+6 elas me convenceram a parar de trabalhar. Meu plano inicial era trabalhar até a véspera, pra não perder dias da licença e porque, no fundo, eu queria contar vantagem, dizendo que trabalhei até o fim (uma besteira danada, eu sei). No sábado, com 39+2 fui pro show de Sandy e Júnior. Ousada! (Mais ou menos, né, era Sandy e Júnior, convenhamos que nada de mais perigoso poderia acontecer…).
Antes de ir, terminamos de arrumar a mala da maternidade.

Durante o show, muitas contrações sem dor e bebê bastante agitada. Curti, me diverti, mas fiquei mais quietinha. Nem pular eu pulei… na volta pra casa, no carro quentinho, as contrações começaram a vir mais doloridas. Avisei pra Nayane, parteira que também tava no show, e ela disse pra eu ficar no chuveiro quando chegasse em casa. E que descansasse, porque se fosse o trabalho de parto mesmo, era melhor estar descansada. Foi o que fiz. Fiquei meia hora no chuveiro, sentindo contrações, mas sem contar os intervalos. Cansei, quis deitar. Não durou. Já não conseguia ficar deitada quando a contração vinha e o intervalo tava cada vez menor. O Adriano achou melhor voltar pro chuveiro e ficar pelo menos 40 minutos. Ele marcaria as contrações, enquanto terminava de montar a playlist do parto. Ficamos mais de uma hora assim, com dores mais intensas, e o tampão começou a sair. Com sangue. Mandamos mensagem pras parteiras, que confirmaram ser o tampão e que era normal vir com sangue. Depois disso as contrações deram um tempo e achei que conseguiria dormir um pouco. De novo, não durou muito. Durante as contrações eu precisava ficar em pé, me movimentar. Fui pra sala, pra não atrapalhar o marido, mas ele não me deixou sozinha. Uma das parteiras ligou e falou pra chamar a doula. Já devia ter feito isso, mas já não tava muito bem das ideias…
A doula chegou, viu meu estado e disse: já é o jogo. É pra valer. Meu Deus! Tava acontecendo! Ela fez vários exercícios comigo, colocou um aparelho de fisioterapia, agachamentos, posições diferentes… A coisa já tava bem apertada. Eita! Tava mesmo acontecendo! A chegada da doula deixou o Adriano mais tranquilo… a partir dali ele poderia ser só marido e pai. E que marido e pai!

Depois de umas duas, três horas de exercícios com a doula eu comecei a sentir uma vontade de empurrar e ficar sentada no vaso me fazia bem. Nesse momento a doula avaliou, junto com as parteiras, que tava na hora da gente ir. Banho rápido, pegamos as bolsas e fomos. Domingo de manhã, trânsito ótimo. Vinte minutos e quatro contrações depois, chegamos à casa de parto. Encontramos a Tati, outra parteira, e subi com ela. Como eu me sentia segura com cada uma delas! Ana me recebeu com um abraço forte, em meio a mais uma contração, disse que a banheira da suíte ipê (tão linda) tava enchendo, entregou pro Adriano uma caixinha de som e disse que tava indo acompanhar outra gestante que tinha entrado em trabalho de parto. Iara tava vindo me acompanhar também (e chegou fazendo festa e afirmando: que dia lindo hoje!). Tati, com toda a paciência do mundo, me explicou que teria que fazer um toque pra saber a dilatação e, sobretudo, a posição da Helena. Tinha compartilhado com elas o meu desejo de um parto sem toque, ou com o mínimo possível. Não tanto pela dor que poderia sentir, mas pelo fator psicológico: já pensou estar sentindo muita dor e o toque revelar 2 cm de dilatação? Meu medo era que isso me desanimasse…
No exame, surpresas: não doeu nada e já estava com 9 de dilatação e bebê super bem posicionada. Nossa, tava mesmo acontecendo! Dali em diante foram cerca de cinco horas de banheira, chuveiro (debaixo d’água tudo era mais bonito, mais azul, mais colorido…), massagens, exercícios, vocalização, gritos, cocô, reza, conversas com Helena, medo, carinho do marido, canto, risos…


A cada contração a Tati me convidava a atravessar aquela dor com serenidade. A Iara me segurava firme pela mão e me lembrava a mulher que eu sou. A Arielle me colocava em movimento, em direção à minha filha. E o Adriano me amava. Quanto amor, quanta proteção! Aliás, acho que essa palavra pode definir o que vivemos, eu e Helena, naquele domingo: proteção. Foi um parto protegido!

E depois de muita dor (gente!), medos, vontade de desistir, às 14h35, o Adriano me entregou minha menina. Tinha acontecido!
E ela chegou forte, chorando alto, me mostrando que era real. Corajosa! Porque é preciso coragem para nascer. Tivemos nossa hora de ouro, ela no meu peito, sugando como se sempre tivesse feito isso. Foi uma primeira hora feliz. Ligamos pras famílias – e ninguém acreditou que nossa menina já estava com a gente. Minha mãe gritava no telefone! O Adriano cortou o cordão e acompanhou os primeiros cuidados. Tudo com muita serenidade. Só tinha a gente ali, vivendo nosso infinito particular. Depois, almoçamos e dormimos, nós 3. Nós 3…


Para além da fisiologia, da travessia pelas contrações, do corpo se abrindo, o parto pra mim foi uma partida. Eu fui para não voltar. Ainda não sei onde vou chegar, acho que isso nem importa, mas eu parti… O expulsivo foi intenso, definidor da minha vida a partir daquele momento. Teve muito do sagrado e muito do humano, de toda beleza que é trazer alguém à vida. Uma pessoa, inteira, íntegra, individual, com toda potência pra ser o que quiser e ser tudo. Como isso é sagrado, como isso é humano! Viver o que eu vivi, da forma que foi, foi muito libertador. Eu, que sempre gostei de controlar tudo, que sempre pensei demais, fui pega sem ter tempo pra racionalizar o que estava acontecendo. Simplesmente aconteceu. Natural… Provavelmente tiveram coisas que eu não queria, mas estou reconciliada com o meu parto. Pari da forma que quis, como quis, cercada por quem eu quis. Eu e minha filha atravessamos essa juntas. E, como eu já disse, isso é de uma potência enorme! Doeu? Claro! Dor física, dor emocional, dor da coragem de se abrir pro novo, dor da vida que tava ficando pra trás, enquanto outra novinha pedia passagem. Mas, diante de toda essa dor, eu só consigo pensar no Moska, que canta tão delicadamente em uma música que me acompanhou durante toda a gestação: “nunca uma dor foi tão bela”!