É seguro ter um parto fora do hospital?

por | fev 14, 2024 | Sem categoria

A segurança de partos extra-hospitalares, isto é, fora do hospital, é algo ainda muito questionado. Mas será mesmo que os partos hospitalares são realmente mais seguros?

Um estudo internacional conduzido pela Universidade McMaster, em Ontário, no Canadá, e publicado pela revista The Lancet’s Clinical Medicine em 2019 concluiu que o parto domiciliar planejado é tão seguro quanto o parto hospitalar e destaca que não há diferença de risco de mortalidade num cenário de partos extra-hospitalares atendidos por parteiras profissionais (midwives) bem integradas ao sistema de saúde local. O estudo utilizou dados de 21 outras publicações desde 1990, comparando resultados de aproximadamente 500 mil partos domiciliares com números semelhantes de nascimentos ocorridos em partos hospitalares em 8 países: Suécia, Nova Zelândia, Inglaterra, Holanda, Japão, Austrália, Canadá e Estados Unidos.

O estudo analisou a segurança do local de nascimento, informando sobre o risco de morte no momento do nascimento ou nas primeiras quatro semanas de vida. Não foi encontrado risco clinicamente importante ou estatisticamente diferente entre os grupos domiciliar e hospitalar. Os pesquisadores concluíram que mulheres grávidas de baixo risco que pretendem dar à luz em casa não têm maiores chances de morte perinatal ou neonatal em comparação com outras mulheres nas mesmas condições que pretendem ter o bebê em um hospital.

É claro que mortalidade por si só é um evento raro e que a realidade brasileira é distinta dos países observados no estudo. Esses fatores devem ser levados em consideração na análise dos resultados, mas não invalidam sua utilidade.

Já é sabido que para que um parto extra-hospitalar seja uma opção segura, alguns critérios de planejamento e segurança são necessários!

Dentre eles, elencamos um tripé de segurança, que são os critérios utilizados pela Luz de Candeeiro ao planejarmos um parto no Centro de Parto Normal.

  1. Classificação de risco eficiente no pré-natal: A cada consulta pré-natal, por meio da escuta qualificada dos relatos da mulher, realização de exame físico e solicitação e análise de exames complementares (se necessário), é feita a classificação de risco. Caso surjam alterações, elas serão manejadas adequadamente e, se preciso, será indicado que o parto deverá ocorrer em ambiente hospitalar por questões de segurança.

2. Reconhecimento precoce de intercorrências: Durante o trabalho de parto, essa classificação de risco é contínua e se dá por meio da avaliação da parturiente e do feto. A parturiente tem seus desejos ouvidos, suas necessidades atendidas, seus sinais vitais aferidos; o ritmo de contrações uterinas e a dilatação do colo do útero são avaliados. Também se observam o estado emocional da mulher, a ocorrência de perdas vaginais e seu aspecto, além de outros sinais da evolução do trabalho de parto. Os batimentos cardíacos fetais são periodicamente auscultados, conforme protocolos científicos, e são o principal fio condutor do trabalho de parto. Além disso, a progressão da descida do bebê no canal de parto e sua posição também são avaliados. Dessa forma, é possível detectar oportunamente desvios da normalidade que indiquem a necessidade de manejo ou de encaminhamento ou hospital.

3. Encaminhamento oportuno: É fundamental que exista um “Plano B”, ou seja, um planejamento de como serão manejadas possíveis intercorrências e como se dará a continuidade do cuidado médico e em ambiente hospitalar quando necessário. Isso é integração entre os serviços de parteiras profissionais (no Brasil, enfermeiras obstetras e obstetrizes) e o restante do serviço de saúde local. O Centro de Parto Normal Luz de Candeeiro tem parceria formal com Maternidade de referência e contrato com ambulância para encaminhamento oportuno e adequado de parturientes, puérperas ou bebês ao cuidado médico e hospitalar quando necessário. Além disso, a equipe de enfermeiras obstetras realizam capacitações e treinamento periódicos no manejo de intercorrências, o que lhes dá condições de prestar os primeiros atendimentos a mulheres e bebês mesmo em situações que fogem da normalidade.

Para muitas mulheres e famílias, o hospital será o local mais seguro para o parto, seja por necessidade ou por preferência. O melhor lugar para parir é onde a mulher se sinta confortável e segura. O que este e outros estudos oportunizam é o questionamento da sensação quase absoluta de segurança que o hospital traz, assim como a possibilidade de considerar que essa sensação de segurança pode ser culturalmente construída, imposta, não necessariamente genuína. Hospitais podem dar a sensação de segurança. Nem sempre, no entanto, os processos de trabalho e de cuidado dessas instituições já incorporaram as boas práticas de atenção ao parto e ao nascimento; muitas vezes, há, inclusive, um excesso de intervenções no processo parturitivo e de chegada de um bebê nessas instituições, contrárias às melhores e mais recentes recomendações científicas.

A escolha do local de parto é uma construção deve ocorrer ao longo do pré-natal, a partir da troca de saberes, do compartilhamento de informações completas e de qualidade.

Quando a mulher se sente segura e atende aos critérios de elegibilidade para o parto extra-hospitalar, essa é uma escolha segura e legítima, que está dentro do exercício de sua autonomia. A verdadeira escolha acontece quando ela tem informações completas e corretas sobre os riscos e benefícios de cada situação. Essa escolha pode e deve ser apoiada por profissionais.

Por isso, independentemente do local de parto, a mulher grávida deve ter suas escolhas respeitadas e, em situações em que seja necessário fazer algo diferente do escolhido, ela deve saber e entender os motivos.

Referências:

· Eileen K. Hutton, Angela Reitsma, Julia Simioni, Ginny Brunton, Karyn Kaufman, Perinatal or neonatal mortality among women who intend at the onset of labour to give birth at home compared to women of low obstetrical risk who intend to give birth in hospital: A systematic review and meta-analyses, EClinicalMedicine, Volume 14, 2019, Link

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